Carrillo como Jesus: trocar de rival eterno também é um pleno direito

É oficial: o Benfica fechou de facto a operação de contratação do extremo peruno André Carrillo, que assim deixa o Sporting a custo-zero. Terá tido o Benfica a sua vingança após a passagem de Jorge Jesus para Alvalade?

Carrillo como Jesus: trocar de rival eterno também é um pleno direito
Foto: Getty Images

Depois de Jesus, Carrillo: o derby de Lisboa não morreu no assentar da poeira durante a passagem de Jorge Jesus, da Luz para Alvalade, sem passar pela casa partida, mas recebendo sim muitos milhões em troca. Ora, Mais de seis meses volvidos, é a vez do Benfica atingir o rival onde mais dói - no orgulho, roubando um activo valioso que trocou Alvalade pelos chorudos milhões encarnados. Enfim, uma novela de ditas traições, ódios desdéns e muitos milhões.

No interregno de Verão, enquanto a competição descansava, o Sporting empurrou Marco Silva borda fora e resgatou um Jorge Jesus em final de contrato, descartado pelo Benfica mas nunca imaginado, pelas hostes da Águia, no rival eterno. Assim foi: Jesus tornou-se Judas para os benfiquistas mais fanáticos e a tinta escorreu a jorros nas páginas de jornais, e nas redes sociais, a pescaria de insultos pariu uma enxurrada. Um prelúdio bombástico da temporada.

Mas esse seria apenas o primeiro capítulo de uma Liga quente, que viveria períodos de guerrilha bacoca alimentados pela baixeza do mediatismo barato - deu o dicionário palavras a quem não tem senso. Assim, nessa cadência, seguiu a época, crivada de balas entre Benfica e Sporting, puro ódio destilado, autêntico contraste com a classe das exibições dentro das quatro linhas, protagonizadas pelos rivais de sempre. O caso Carrillo, que alimentou a novela peruana do Leão, foi nova chama na picardia mútua.

O extremo peruano, tido como um dos mais tecnicistas membros do plantel (e até promessa por potenciar por Jesus), segue agora para o Benfica, cinco meses depois de ter desferido o remate que decidiria o derby da Supertaça, ajudando o Sporting a celebrar o primeiro título da era de Jesus e o segundo do reinado de Bruno de Carvalho - ele que, relembro, foi importante peça no sucesso do Sporting 2014/2015 na Taça de Portugal. Um mês depois da Supertaça morar no museu de Alvalade, Carrillo sumiu, por entre recados directivos, negas negociais e muita contra-informação.

A razão pela qual Carrillo sai do Sporting é irrelevante, e, apenas o mesmo aziago tipo de adepto - aquele que até agora considera Jorge Jesus um 'traidor' - poderá considerar que o jogador lesou o clube premeditadamente. Não lesou nem deixou de lesar: apenas fez jus à sua liberdade laboral, garantida na lei, e, como entendeu, rejeitou prosseguir para além do Verão de 2016 no Sporting. Tal como Jesus fez, sem mácula, ao sair do Benfica - algo que muitos benfiquistas confusos também insistem em não perceber. Afirmar que o atleta previa prejudicar o Sporting é simples infâmia.

Porquê? Porque o simples raciocínio perverso apenas tem por fim semear a dúvida sabendo, de antemão, que a verdade dificilmente será vertida, nos próximos anos, na comunicação social. E, portanto, como qualquer fanatismo cego, o adepto dessa laia acredita piamente no «soundbyte» que lhe é recomendado, como uma disciplina de voto à qual anuiu como as ovelhas da era mediática 2.0; a dúvida é instrumento primordial de sensibilidade intelectual, mas, neste tipo de casos, apenas entra em cena para colocar, ocamente, o carácter do profissional em causa.

Carrillo e Jesus escolheram o seu futuro, livremente, e, felizmente, sem aparentes constrangimentos ou coerções. O treinador escolheu liderar a equipa técnica do Sporting, pressentindo a indiferença do Benfica, e, talvez até, ressentindo-se dela, tomando-a, posso imaginar (como eu talvez imaginaria no seu lugar), por injustiça. Carrillo optou, em primeira instância, por não querer continuar em Alvalade (rejeitando a renovação), podendo, poucos meses depois, escolher o futuro sem dar contas ao clube leonino. Assim fez, e, pelo que consta pelo bom arranque de época, estaria disposto a ser profissional até ao fim da ligação.

Em segunda instância, escolheu trocar o Sporting pelo Benfica. Simplesmente assim. Como, assim, simplesmente, deveria ter sido encarada a saída de Jesus para o Sporting. Porque a lei regula, fixa direitos e deveres, e estamos todos obrigados a respeitar quem exerce um direito seu sem que o façamos sentir que faz uso de um qualquer privilégio de malvadez. 


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