GP 1 de Espanha 1980: a corrida que não existiu

Há precisamente 35 anos, um conflito entre duas entidades pelo controlo da Formula 1 causou o sacrificio do GP de Espanha do calendário.

GP 1 de Espanha 1980: a corrida que não existiu
Em Jarama, Reutemann lidera o pelotão (foto s/d)

A história da Formula 1 nem sempre foi um mar de rosas. Nem tudo foram vitórias e tragédias, também a politica faz parte da categoria máxima do automobilismo, e nem sempre têm a ver com manifestações ou reivindicações de pilotos por maior segurança. Nesta caso em particular, falamos de uma luta pelo controlo da Formula 1 e por uma maior distribuição de dinheiro entre as equipas e a entidade que gere o automobilismo mundial.

Em 1980, a FISA (Federation Internationale de sport Automobile) era liderada pelo francês Jean-Marie Balestre, que tinha chegado ao poder dois anos antes. Um dos pioneiros do karting e presidente da Federação Francesa de Automobilismo, a FFSA, Balestre tinha sido eleito com a campanha baseada na segurança, mas com o objetivo de ter maior controlo sobre a Formula 1.

Contudo, já nessa altura tinha que lidar com Bernie Ecclestone. Então com 49 anos, Ecclestone era o dono da Brabham desde 1971, altura em que comprou ao ex-piloto australiano. Por essa altura, ele tinha descoberto o poder da televisão e o dinheiro que este poderia render, e em 1978, juntamente com Ken Tyrrell, Teddy Mayer e Frank Williams, decidiu fundar a FOCA, Formula One Constructors Association, que defendia os interesses dos construtores perante os organizadores e a FISA. A ideia era ter uma parcela equivalente a metade das receitas televisivas, que já começavam a ser importantes. Só nesse ano de 1978, Ecclestone tinha conseguido que as equipas recebessem um milhão de dólares nessa temporada.

Só que Balestre queria fazer as regras à sua maneira, algo que Ecclestone relutava. E as tensões começavam a subir desde o inicio da temporada de 1980. É que Balestre tinha os construtores como Renault, Ferrari e Alfa Romeo ao seu lado, enquanto que Ecclestone e a FOCA eram apenas as equipas com os motores Ford Cosworth V8.

O despertar da crise... e a intervenção do rei

Desde o GP da Bélgica, disputado a 4 de maio, que a FISA tinha instituido um aviso aos pilotos de que seriam obrigados a comparecer a um briefing de 45 minutos, sob pena de uma multa de dois mil dólares. Os pilotos ignoraram esses avisos - a conselho dos advogados - e voltaram a fazê-lo duas semanas depois, no Mónaco. Balestre decidiu partir para a ação, a a 29 de maio, decidiu suspender quinze dos pilotos do pelotão. 

A FOCA reagiu de imediato, ameaçando abandonar a corrida espanhola caso não se levantasse a suspensão. E aí, a RACE (Real Automovil Club de España) decidiu intervir, pois temia que a corrida fosse suspensa tão em cima da hora. Ofereceu um valor em dinheiro equivalente às multas que os pilotos deveriam pagar, mas a FISA recusou, afirmando que só aceitaria se viessem do bolso dos pilotos. Vendo a situação se complicar, o Rei Juan Carlos intreviu e decidiu que a RACE iria organizar a corrida, ultrapassando as competências da FEA (Federacion Espanõla de Automovilismo), fazendo assim com que a corrida não fosse sancionada pela FISA. A partir daquele momento, aquela era uma corrida "pirata".

Uns... e os outros

A sessão de treinos de sexta-feira começou com tensão no ar. Apenas as equipas de fábrica testaram, ou seja, Osella, Alfa Romeo, Renault e Ferrari sairam à pista para treinar. Meia hora depois, a sessão parou quando a Guardia Civil, acompanhados por um representante da RACE, entrou no circuito para falar com os representantes da FISA no local. Após algum tempo de conversa, eles abandonaram o local e a sessão prosseguiu, agora apenas com as equipas FOCA. Por volta do meio dia, os camiões da Osella, Ferrari, Alfa Romeo e Renault sairam do local, não participando mais naquela corrida, e esta prosseguiu com os 22 carros restantes. A Osella acabaria por voltar à corrida no sábado, mas em nome seu patrocinador, a Denim.

No final das duas sessões de qualificação, o melhor foi Jacques Laffite, no seu Ligier, com Alan Jones ao seu lado, no seu Williams. Didier Pironi era o terceiro, no segundo Ligier, com o segundo Williams de Carlos Reutemann ao seu lado. Nelson Piquet era o quinto, no seu Brabham, seguido do McLaren de Alain Prost, enquanto que na quarta fila estava o segundo Brabham de Ricardo Zunino e o Lotus de Mário Andretti, enquanto que a fechar o "top ten" estava o ATS de Jan Lammers e o Osella de Eddie Cheever.


O filme da corrida

Debaixo de calor intenso - 38ºC de temperatura à hora da corrida - 22 máquinas e pilotos preparavam-se para aquilo que deveria ser a sétima prova da temporada de 1980. Na partida, Laffite foi lento a arrancar e isso foi aproveitado pelos Williams para ficarem na frente, com Reutemann a ser mais veloz do que Jones.

Com o passar das voltas, os Williams afastavam-se dos Ligier, com Pironi no quarto posto e a batalhar-se contra os seus travões, ao mesmo tempo que era pressionado pelo Brabham de Nelson Piquet. Aos poucos, o pelotão começava a dissolver-se: ao fim de cinco voltas, já Alain Prost, o Shadow de Dave Kennedy, o Fittipaldi de Keke Rosberg e o Tyrrell de Derek Daly já tinham abandonado devido a problemas de travões.



Na volta 13, Jones falha uma passagem de caixa e cai para o quinto lugar, perdendo para Pironi, Piquet e o ATS de Lammers. Pouco depois, o brasileiro aproveita os problemas do francês para ficar com o segundo lugar, enquanto que na volta 26, o holandês abandona devido a problemas elétricos. Na volta 35, Reutemann e Laffite aproximam-se do Williams privado do local Emilio de Villota. Este tenta desviar-se dos da frente, mas Laffite decide que era a altura ideal para assaltar a liderança. Só que os calculos saem mal feitos e ele atinge ambos os Williams, causando o abandono dos três.

Com isto, Piquet era o novo lider, mas apenas até à volta 42, quando a sua caixa de velocidades falhou, deixando a comando da corrida para Pironi, com Jones atrás, a três segundos. Mas na volta 65, o francês sente vibrações no seu carro e abranda a uma zona onde se poderia ir a 50 km/hora, vendo um dos seus pneus abandonar o carro... No final, Alan Jones herdou o comando e foi assim até ao final, numa corrida de sobrevivência: apenas seis carros chegaram ao fim. Jochen Mass foi o segundo, no seu Arrows, com o Lotus de Elio de Angelis a completar o pódio. Jean-Pierre Jarier foi o quarto, seguido por Emerson Fittipaldi e o Ensign de Patrick Gaillard.

Uma corrida... extra-campeonato

A FISA reagiu rapidamente. No dia seguinte, em reunião extraordinária em Atenas, decidiu que a corrida espanhola não iria contar para o campeonato e tinham decidido tirar o lugar das construtoras junto da FIA, a Federação Internacional do Automobilismo. Aproveitou também para criticar a atitude da RACE em relação ao que tinha acontecido em Jarama, afirmando que tinha excedido as suas competências.

Nas semanas que se seguiram, a organização decidira contestar a decisão, apoiado pelas equipas. Mas a 31 de julho, praticamente dois meses depois dos acontecimentos, o Tribunal de Apelo validou a decisão e a corrida não contaria para os pontos. Por esta altura, a FOCA decidira ceder e pagar as multas que se tinham acumulado e assim os pilotos correram com as suas licenças no GP de França, que aconteceu a 5 de julho. Mas a luta não tinha terminado por ali, novos capitulos iriam acontecer dentro em breve.